15/01/12

De amanheceres e coisas assim...

De amanheceres e coisas assim...


Esta manhã
encontrei
teus gestos
sobre meus lençóis
e o teu perfume
transpirou
meus pensamentos.
A pele ardeu-me
onde há pouco
tuas mãos
deslizaram delírios,
meu corpo
aconchegou-se
nos teus [a]braços
e minha boca
sorriu o gosto
[absorvido]
dos teus segredos...


Helena Chiarello


Imagem: Foto de Anderson Fabiano

30/11/11

Rubras confissões

Rubras confissões


 ...é aqui que nos atrevemos,
 entre o desejo e aqueles ramos,
 soltos na vertigem de um fogo
 que nos espreita e acende
                              a noite

 mãos trêmulas e pétalas afagam
 a paisagem explícita das intenções
 e promessas inflamadas
 umedecem e instigam os céus
                              da boca

 o palpitar e o ardor das cores
 que derramam volúpias nos ramos
 é só uma metáfora
 para essas in(can)decências
 que florescem ousadas
 da voracidade
 dos nossos instantes febris
 e nos tingem
                              as vontades
 com (suss)urros escandalosamente
                              vermelhos...


 Helena Chiarello


Foto: Flamboyant aqui de casa - nosso arquivo.
.

22/11/11

Abstração














Abstração


Às vezes me vejo assim,
alheia à compreensão
desse imenso espaço
entre o pensamento
                          [quase palpável]
e a palavra que falta.

Insisto a concretude
dos tantos devaneios,
ausento-me dos ruídos
e mergulho a vontade
nessa distância
                          [quase inatingível]
que separa o imaginário
de tudo o que quero verbo.

Mas a palavra voa,
fugaz como um sopro,
leve como a brisa,
frágil como um suspiro
                          [quase inevitável]
que se solta devagar.

É assim que me deixo aqui,
olhando a chuva calada
cortinando a varanda,
regando uma inspiração
                          [quase impossível]
que me falta como o sol.

Soletro absurdamente
cada pensamento,
e um poema
                          [quase insuportável]
se agiganta aqui no peito
à medida que me falta a voz.

                          Mas há dias assim,
                          de palavras inabaláveis.
                          E de mãos caladas,
                          quando se tem tudo a dizer.


Helena Chiarello


Imagem (edit): Google

30/10/11

Pétalas














Pétalas
.
o pensamento rodopia
                                  e flutua
à coreografia leve
de um instante de flor
que se solta
                                  suavemente
do caule do tempo...

a tarde venta

                                  [pétalas]

e caem poemas
sobre os verdes...









Helena Chiarello

Imagem (edit): Google

16/10/11

Como se fosse sempre















Como se fosse sempre
.
As flores que guardo nas mãos
e me aromam os dias,
são buquês de confiança
nascidos em canteiros
sempre férteis de anseios
e orvalhados de esperanças.
São brotos de muitos sonhos,
que polinizados
                [de cumplicidades]
amadurecem,
alastram-se em ramos
e florescem horizontes.

São minhas teimosias primaveris,
minhas desmedidas crenças
na perenidade dos jardins
que atravessam a palidez das ausências
e já nascem fecundados de varandas,
afetos e simplicidades.

Todos os dias,
como se fosse sempre.


Helena Chiarello

Imagem (edit): Getty

11/10/11

Poema de olhar o amor















Poema de olhar o amor
.
______________________ As palavras proferidas pelo coração
______________________ não tem língua que as articule,
______________________ retém-nas um nó na garganta
______________________ e só nos olhos é que se podem ler. [Saramago]

.
Andava pela tarde
com aquele jeito absorto,
fazendo o trajeto que
eu sabia,
gostava tanto.
Olhava as flores do jardim,
examinava uma folha,
tirava um galho
que esqueceu de brotar.
Parava o tempo
para ouvir um pássaro.
Passava a mão
nos cabelos de brisa
e com uma cara de riso,
abria os braços
como quem abraça a vida.
Olhava em volta
e respirava comprido,
como se quisesse absorver
todos os cheiros da estação.
Fazia parte daquilo tudo
e tudo aquilo era parte dele.
...E andava pela tarde,
ao meu olhar absorto...

                                  [A buscar uma palavra,
                                  uma ternura estendida
                                  esvoaçou o instante
                                  e pairou num pensamento.
                                  Aquele silêncio comovido
                                  tinha forma, gesto,
                                  gosto e nome.

                                  “Eterno” - sussurrou-me,

                                  num longo sopro, o tempo.
                                  Sorri comigo mesma.
                                  “Infinito” - pensei.
     
                                  Minha voz, se houvesse, diria amor.]

.
.
Helena Chiarello
.
Imagem (edit): Google

17/09/11

A gosto, setembros...
















A gosto, setembros...
.
Gosto desse gosto
de manhãs
em minha janela.

Gosto desse vento rendado
que escancara as cortinas
e deixa que riscos de sol
se espalhem
desenhando
primaveras nas paredes.

              Gosto dessa flutuação,
              dessa sensação esvoaçante
              que me arrebata
              a palavra
              para dizer claridade
              e pássaros,
              aromas
              e contentamentos,
              ternuras
              e florações.

Digo então o gosto.
O gosto 
dessas manhãs
em minha janela
de alegrias escancaradas,
emoldurando setembros,
levezas
e deslumbramentos.
.
Helena Chiarello
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Imagem (editada por mim): Google
.

24/08/11

Versos de amar e mar...















Versos de amar e mar

_________________________________ Um poema a Neruda

Aberta em poesia e velas
a página versa as vagas
de um mar que invade as praias
da emoção sem precedentes.
Não há que ser diferente.

A tua palavra-onda
tem uma força que alaga,
maré-cheia meus sentidos
e inunda minha visão.
Tua frente à minha frente
transforma o momento em vento
e em veleiro, a emoção.

______ E leio,
______ navego e canto
______ e rio,
______ naufrago e pranto.
______ É a tua voz o timão.

______ E sinto e vago, singrando
______ à deriva da razão.
______ Parto e cais,
______ a tua palavra
______ ancora meu coração.

E escrevo pra ti,
então,
um verso afogado e louco,
enquanto em mim há tão pouco
das águas desse teu canto
e do imenso mar em tua mão...


Helena Chiarello
Blumenau – SC – Brasil

.
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[Poema publicado na II Antologia "Mil Poemas para Neruda" - ed. 2011, organizada pelo poeta chileno Alfred Asís, Cónsul de Isla Negra y Litoral de los Poetas - Poetas del Mundo, .lançado no Chile. em 09/Julho/2011]
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Imagem: Google, edit. por mim