Distâncias

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Nas cercanias desse lugar acanhado
alguma coisa amotina a brandura.
Um esvaziamento evoca pretéritos,
e na euforia da esperança,
cada vulto de certeza se arrebenta
na desmemória do futuro.
Tudo se move,
mas tudo o que se move
parece acentuar ausências.
A vontade é solitária. Longe e despovoada.
Depois, essa cava involuntária,
esse desassossego imposto  pelo silêncio
do convívio que me percebo sob.
Da boca ávida por palavras,
o grito convulsa e sai sussurro.
Há um riso, sim.
Ele cisma de antecipação e promessas,
mas se deixa morrer baixinho,
num canto qualquer de cada afeição transeunte.
Esse não-lugar é quase dor.

Faço medo.
E de [a]braços vazios,
me calo na estranheza
de não saber como sair incólume
dessa solidão estrangeira.


Helena Chiarello

Cons[ciência]

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Metade de mim é terrestre
e a outra me extra­_nha.

É a segunda
que me expande
e me põe na órbita das divagações,
lá onde buracos negros
engolem certezas
e verdades me colidem.

Não estamos sós,
a lua me engana
e a Terra é muito mais do que penso.

O que fazer se descompenso?

Cosmos invadem meus olhos
e ET’céteras
cintilam insistentes no meu céu nômade.


Helena Chiarello

...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Às vezes
o que me é próprio
é não entender

E suspenso
no cavo denso da dúvida 
o engasgo
o alvoroço
e sustento
um oco, o eco, o vácuo
dos avessos que consinto

O que me devolve
é que de todos os revezes
saio incólume

                       [ou minto]


Helena Chiarello

[Re]missa

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Da última vez que morri
eu era santa
- e forjada no improvável
me alcei emplumada
no alarde antigo
das minhas crenças rasas

com mãos crispadas
de pecados e dons
não me sustentou
a prece grudada à boca,
o perdão de menos
e o espanto da constatação demais
- e despenhei alarmada
no caos de tudo que me fazia
e me pesava
e me pesava

[e era nada]

Meu D(eu)s,
perdoa-me a finitude!

Da última vez que morri
cheguei atrasada da verdade das asas.


Helena Chiarello

De tempo e asas

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Há paisagens e varandas
que contemplam a memória
de quando o contentamento dos pássaros
[en]cantava o brilho alado
dos nossos olhos de esperança e ventania.
Na soltura daquele enredo
folhas e primaveras nos sopravam
futuros e infinitudes.

Mas sabemos,
não duraremos aqui
muito mais do que aquela estação.

E quando as horas voarem
por sobre os jardins que amamos
e a noção dos dias
desembocar na noite silenciosa do tempo,
vamos retomar as antigas asas,
pousar no ramo mais alto
e impor nossa própria eternidade
à brevidade de tudo o que voa...


Helena Chiarello

:E:

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

E quando o quanto
de tudo
passar a ser desequilíbrio
talvez um ruído mais alto
espante as possibilidades
e as borboletas.
Por hora,
gastemos o enquanto
atordoando as frestas
dos fragmentos
e dos silêncios
com aqueles poemas
que nos beberam
a escuridão dos dias
e [ deliberadamente ]
nos dotaram de asas...


Helena Chiarello

Sépia

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Um rasgo de sol
passeia sobre a fotografia
de uma tarde antiga.
Enquanto muda de lugar,
desenha sombras na memória
e um silêncio desbotado
agarra-se à lembrança
das intensidades
que escapam de agora.
Quase nada de cor
sobra para esse depois
do instantâneo corroído
daquela imagem
enrugada de ontens.

                                                    [Há coisas que se revelam
                                          na fragilidade absurda do tempo.
                                Como a vida, momentaneamente eterna
                                                   mas cada vez mais escassa.
                        E que brincando de desbotar, também passa.]


Helena Chiarello

[in]

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

[in]

não haverá outro agora
o que queremos posse
passa
ontem terminou há séculos
é isso ou nunca
amanhã é longe
e pode não ser

[certeza]


Helena Chiarello

Inspiração

Foto: Anderson Fabiano - arquivo pessoal

Não quero que me escape
a maravilha
desse alvoroço de fogo
que me pousa
ao nexo
à pele
ao sal.
Quero guardar
o gosto
e o frêmito
de um verso
ardendo
no céu da boca
e o tremor do corpo
que acorda no meio da noite
agarra as palavras pelos cabelos
e murmura
e transpira
e escreve poemas de amor...


Helena Chiarello

Estilhaço

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Naquele longe
era claridade
e eu ainda não sabia
toda a luz e tanto dia
e tudo o mais
que eu perdia

E quando a sombra
que te envolvia
rasgou as frestas
do meu silêncio
[e tudo em volta
estava escuro
tudo embaçado
feito fumaça]
aquela vontade antiga
que no peito ainda ardia
tomou distância
abriu as asas
e arremessou-se
contra a vidraça


Helena Chiarello

Estiagem

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Vontades antigas
murmuram
como uma espera de vento
à véspera de tempestade.
O pensamento árido
anseia
a água
e a esperança
em estado de pedra
arde o broto
que sonha
o milagre da floração...


Helena Chiarello

Nunca vi essa luz em teus olhos

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Andei por aí inventando sonhos.
No meio dessa minha inaceitável teimosia de acreditar
em possibilidades, inventei muitos. 
Ontem, hoje, ainda há pouco.
Não sei amanhã. Não sei.
Não sei se quero ainda ouvir a voz das minhas intermináveis expectativas,
nem a voz das emoções e pensamentos e sensações e memórias
e tudo isso que se contorce no mais de dentro de uma pessoa.
Essas coisas conseguem ser repletas de pontas, sim!
De arestas, de quinas vivas,
de lâminas que parecem sempre afiadas
e matam de medo do depois.
Falta alguma coisa macia, alguma coisa comum,
alguma coisa tão doce
que possa caber na insustentável leveza do sempre.
Sobra o cansaço do peso da exigência sofisticada, supérflua
e a dor da eterna inadequação.
No meu demente exercício para desviar da agudeza do real,
constato. Estou bem mais para a última.
Talvez isso, isso,
essa vontade de interromper-me aqui,
antes de alcançar qualquer coisa próxima da certeza irrevogável,
da mutilação irreversível. Antes de.
Algo assombra, algo ronda, algo murmura e se esgueira,
porque, sim, nada é impressentível.
Acontece que andei por aí, inventando sonhos.
Mas essas coisas que deviam ser leves, etéreas,
parece que gostam mesmo é de voar nas asas do nunca.
E quando passam por mim, inalcançáveis,
fazem estranho ruído nesse lugar confuso que sou.
“Não queria assim, esses turvos.
Não queria assim, esses vagos.”
Não queria assim,
esses espaços imensos onde fica o inatingível desejo
de sentir arder na pele da alma a possibilidade,
que fosse isso, a vaga possibilidade de sonhar
as coisas que me seriam dadas sem que as implorasse,
mas simplesmente as motivasse e merecesse.
Queria assim, o gosto de poder segurar com mãos,
pelo menos por instantes,
o que nunca sequer me toca.
Há vida no grito escuro da indiferença?
Assombram-me essas certezas, tão vivas e tão súbitas,
que nada me deixam fazer senão aceitá-las.
É nesse turbilhão que vacilo, desequilibro,
e desesperadamente escorro,
tentando um algo à beira do abismo que me sustente,
até um grito que me espante, mas me detenha,
uma claridade, uma luz, uma coisa qualquer
que me arranque do fundo desse fundo de tudo,
que me devolva a vontade de engolir de vez ou vomitar
a impossibilidade desse não-sei-quê que me torce a alma!
[Quem sabe aquela fúria enlouquecida que li tantas vezes
em poemas de amor, que colocava um brilho insano
no olhar do amor sobre a amada?]
Mas silêncio - e nada - e nada.

                                                    Vazios se erguem à toda volta.
                                             Talvez seja exatamente a espessura
                                                     do improvável e do impossível
                                               que me pesem sobre as pálpebras
                                                               e me cerrem os sonhos.

[Nunca vi essa luz em teus olhos.]


Helena Chiarello


Era

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Só a esperança
nos sustentava
porque era
antes de nós
mas o tempo
tarde e gasto
desespera
desampara
e agora
nem nos suporta
a espera


[Helena Chiarello]

Controversa

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Que fosse assim,
num fluxo inverso,
o verso.
Sei do delírio,
da vontade,
da palavra
e da loucura.
Mas nem um poema me nasce,
nem uma frase me cura.
(Talvez só devesse escapar
da minha própria censura.)


Helena Chiarello


Quietude


Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

O sentir entorpecido
repousa todos os gestos
emudecendo o momento
para que não se dissipe,
da cumplicidade suave,
a doçura do silêncio...


Helena Chiarello

Diem

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

No golpe duro desse fim de dia
um silêncio carpe dor.
Já houve horas como essa
de palavras apagadas
de gestos envelhecidos
e o agora ser
um sol posto
de tudo que quase foi.

Pode ser que depois
o dia
um verbo
um gesto
e ainda haja claridade
e tempo [de]

Mas por hora
nesse escuro enquanto
o silêncio me parece eterno.

E a eternidade me parece tanto...


Helena Chiarello


Embriaguez

                                              
Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

“...Talvez o mundo não seja pequeno,
nem seja a vida um fato consumado.
Quero inventar o meu próprio pecado...”
(Chico Buarque)

Combinemos,
nem motivos
são necessários.
Mas inventa um
antes-que-a-noite
pra que eu possa
demorar-me
na vertigem
dos teus sussurros
tintos.
Quero a tontura,
a levedura
dessa tua boca
que me embriaga
e louca.
Serve-me,
sorve-me
em gotas
o gosto
o mosto
disso - vinho
que me transborda
o corpo.
De resto,
em beijo
brinde
e gesto,
cale-se.
E que nenhum
outro qualquer
juízo
afaste de mim
esse cálice.


Helena Chiarello

Metáforas


Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Amanhã podemos ir
com ventos de poesia
desenhar ternuras
sobre as fissuras
que o tempo
andou deixando por aí.
Vamos ouvir os pássaros
com os olhos pousados
numa tarde de esperanças,
plantadas no delírio
dessa estação esparsa.
Vamos escrever
uma primavera qualquer
sobre as pedras,
vamos cometer levezas
e colher jardins
[ antes que o tempo ]
pra que o tempo
perca essa mania
de chamar de impossível
tudo aquilo
que gostamos
de chamar de sonho.


Helena Chiarello

Alegoria

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

E quando nos faltar
o fôlego,
vamos respirando
a vontade,
as coisas vividas,
aquelas promessas,
esse momento.
É só fechar os olhos
e rir,
pra suportar
distraídos
as dores invisíveis
do tempo.
O que parece irrespirável
pode ser apenas
mudança súbita
de estação.
E a vertigem da ilusão                        
pode estar logo ali,
no próximo sopro
do vento.


Helena Chiarello

Trajetória

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Que nem nos peçam explicação,
moderação,
acerto ou consequência.
Desencontrar foi sempre a nossa arte.
E tudo o que pode dar certo
com a gente
já nasceu pendente.
                       [faz parte]
Acertar é condição,
nem sempre escolha
e nisso somos referência.
Qual o caminho, o horário,
o fim do mundo, o tal lugar?
Há até o esforço,
num esboço criativo:
Gps, informação
e vontade de acertar.
Mas de nada vale a orientação.
E de antemão, nos absolvo.
De qualquer jeito,
a gente vai errar.


Helena Chiarello