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| Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal |
As horas que passam,
num compasso cadenciado e certo,
dispersam-me da solidez do tempo
e me conduzem à abstrata linha
que limita intuição e realidade.
É um momento mágico
em que meu corpo, preso à terra,
desprende-se,
solta-se no ar como o pensamento que voa.
Costumava sofrer as horas,
contar os segundos de cada coisa
tão desnecessariamente urgente,
pendurada nos ponteiros de um tempo
que, tão alheio à minha vontade,
ria-se de tudo e passava sempre.
Agora,
toda urgência é a vontade imensa
de andar cada vez mais devagar
em direção à pressa.
Abstraio-me da agitação,
esqueço as horas
e volto-me ao infinito.
É assim que crio,
em meio aos tantos ruídos,
o silêncio necessário
para tudo que preciso ouvir.
É assim que crio,
em meio à profusão de imagens,
a claridade necessária
para tudo o que preciso ver.
E paro e sinto
e vejo e ouço a vida.
Contemplo o universo
e o mistério.
E a magia de cada sensação
é o ar que gosto de respirar.
Assim me sinto parte e todo.
Assim me sinto
deserto e grão de areia,
oceano e gota de orvalho,
floresta e folha carregada pelo vento.
E o meu olhar interior,
perplexo,
compreende a vida.
Intensa é a emoção que expande-se,
volátil,
e esvoaça nas asas da brisa.
Helena Chiarello