Rubras confissões

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

 ...é aqui que nos atrevemos,
 entre o desejo e aqueles ramos,
 soltos na vertigem de um fogo
 que nos espreita e acende
                              a noite

 mãos trêmulas e pétalas afagam

 a paisagem explícita das intenções
 e promessas inflamadas
 umedecem e instigam os céus
                              da boca

 o palpitar e o ardor das cores

 que derramam volúpias nos ramos
 é só uma metáfora
 para essas in(can)decências
 que florescem ousadas
 da voracidade
 dos nossos instantes febris
 e nos tingem
                              as vontades
 com (suss)urros escandalosamente
                              vermelhos...


 Helena Chiarello


.

Abstração

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
Às vezes me vejo assim,
alheia à compreensão
desse imenso espaço
entre o pensamento
                          [quase palpável]
e a palavra que falta.

Insisto a concretude

dos tantos devaneios,
ausento-me dos ruídos
e mergulho a vontade
nessa distância
                          [quase inatingível]
que separa o imaginário
de tudo o que quero verbo.

Mas a palavra voa,
fugaz como um sopro,
leve como a brisa,
frágil como um suspiro
                          [quase inevitável]
que se solta devagar.

É assim que me deixo aqui,
olhando a chuva calada
cortinando a varanda,
regando uma inspiração
                          [quase impossível]
que me falta como o sol.

Soletro absurdamente
cada pensamento,
e um poema
                          [quase insuportável]
se agiganta aqui no peito
à medida que me falta a voz.

                          Mas há dias assim,
                          de palavras inabaláveis.
                          E de mãos caladas,
                          quando se tem tudo a dizer.


Helena Chiarello