Confesso

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Não sei como dizer
a emoção desse poema...

E nem consigo conhecer,

do sentimento que o diz, as tramas.

Só sei que vivo em ti,

é a ti que escrevo.

                        E as palavras que a dizer me atrevo,

                        nascem molhadas de paixão, são águas...

                        ...que ao mesmo tempo queimam,

                        me envolvendo em chamas...


Helena Chiarello


Consciência

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

As horas que passam,
num compasso cadenciado e certo,
dispersam-me da solidez do tempo
e me conduzem à abstrata linha
que limita intuição e realidade.
É um momento mágico
em que meu corpo, preso à terra,
desprende-se,
solta-se no ar como o pensamento que voa.

                           Costumava sofrer as horas,
                           contar os segundos de cada coisa
                           tão desnecessariamente urgente,
                           pendurada nos ponteiros de um tempo
                           que, tão alheio à minha vontade,
                           ria-se de tudo e passava sempre.
                           Agora,
                           toda urgência é a vontade imensa
                           de andar cada vez mais devagar
                           em direção à pressa.

Abstraio-me da agitação,
esqueço as horas
e volto-me ao infinito.
É assim que crio,
em meio aos tantos ruídos,
o silêncio necessário
para tudo que preciso ouvir.
É assim que crio,
em meio à profusão de imagens,
a claridade necessária
para tudo o que preciso ver.
E paro e sinto
e vejo e ouço a vida.
Contemplo o universo
e o mistério.
E a magia de cada sensação
é o ar que gosto de respirar.
Assim me sinto parte e todo.
Assim me sinto
deserto e grão de areia,
oceano e gota de orvalho,
floresta e folha carregada pelo vento.
E o meu olhar interior,
perplexo,
compreende a vida.

                           Intensa é a emoção que expande-se,
                           volátil,
                           e esvoaça nas asas da brisa.


Helena Chiarello