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| Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal |
As palavras proferidas pelo coração
não tem língua que as articule,
retém-nas um nó na garganta
e só nos olhos é que se podem ler. [Saramago]
Andava pela tarde
com aquele jeito absorto,
fazendo o trajeto que
eu sabia,
gostava tanto.
Olhava as flores do jardim,
examinava uma folha,
tirava um galho
que esqueceu de brotar.
Parava o tempo
para ouvir um pássaro.
Passava a mão
nos cabelos de brisa
e com uma cara de riso,
abria os braços
como quem abraça a vida.
Olhava em volta
e respirava comprido,
como se quisesse absorver
todos os cheiros da estação.
Fazia parte daquilo tudo
e tudo aquilo era parte dele.
...E andava pela tarde,
ao meu olhar absorto...
[A buscar uma palavra,
uma ternura estendida
esvoaçou o instante
e pairou num pensamento.
Aquele silêncio comovido
tinha forma, gesto,
gosto e nome.
“Eterno” - sussurrou-me,
num longo sopro, o tempo.
Sorri comigo mesma.
“Infinito” - pensei.
Minha voz, se houvesse, diria amor.]
Helena Chiarello