Atraso...


Ponteiros percorrem lentos
a curva eterna do tempo,
num vago arrastar de horas
que despertam a vontade.

Desenham em curva longa
o oscilar do pensamento
a marcar o contratempo
da vida, a fugacidade.

Marcam no aflito compasso
do bater do coração,
a rapidez de um instante
e a lentidão da saudade...

(Acerta o relógio ao meu,
pra que eu não sofra a ansiedade
desse minuto que é século
e, em minha pressa, é tão tarde!)


Helena Chiarello

Quem levou de mim?

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Quem levou de mim,
Amor,
o acalanto da minha poesia,
o ritmo sonoro
da minha alegria
e pôs na alma fria
essa palavra escura,
esse vazio atroz?
Quem levou de mim,
Amor,
até o grito do meu desencanto
e trouxe à minha mão
essa mudez de espanto
e pôs aqui no peito
essa absurda dor,
esse silêncio algoz?

Quem levou de mim,
Amor,
a voz?


Helena Chiarello

Para os raros...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Eu queria ter coragem para transpor os medos,
enfrentar os muros e ultrapassar anseios,
sem a ferocidade acuada desse animal
que vaga por minhas estepes emocionais.

É inquieta a sensação de andar assim,
no percurso ilógico dos polos que me atraem
e com essa insuportabilidade de estar só
em meio a esse mundo de tanto e tantos!

Queria a liberdade. E maior, a cada passo.
E que a ousadia de tudo o que penso e sou
não conhecesse resignação nem fracasso
e transcendesse a voragem do tempo.

Que o sagrado e o profano que me dividem
não fossem condenação ou sentença;
que pudessem alcançar a unidade perfeita,
o avesso de mim, harmonia e redenção.

Também queria a certeza da insanidade possível
abrindo infindas saídas à sede imensa de sonhos!


...Mas só carrego o cansaço, o delírio de mil almas,
mal contidas pela frágil unidade do que sou...


______ Quem dera ver a esperança, um outro jogo de espelhos
_________ que mostrasse, iluminado, o mágico passaporte
___________ à solução interior, ao mundo só para raros...


__________
Eu queria ser um deles, reconhecer a passagem.
______ Na loucura, a liberdade. Talvez, também, a coragem...


Helena Chiarello


“Somente em seu próprio íntimo vive aquela outra realidade que você deseja”. (Herman Hesse)

Desflorescer

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Guardo um silêncio enraizado
no contratempo de um jardim
que não conheceu flores.

No inverno da memória,
os galhos secos da ilusão
denunciam a equivocada esperança
de uma primavera que nasceu estéril.


Helena Chiarello



Contemplação

Foto: Anderson Fabiano - arquivo pessoal


E nem é preciso
que haja o dia,
nem a luz...
Porque tudo o que preciso,
para melhor ver-te,
é apenas fechar os olhos...


Helena Chiarello