Então, estrelas...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Me despertas,
com o mesmo gesto sereno
da noite ocupada em luar,
com um olhar que traduz
um brilho colhido de astros.

                         E eu,
                         que te esperava desde a eternidade,
                         abro os olhos para contemplar,
                         pelos teus,
                         o cintilar de tua alma,
                         que transcende o corpo destinado
                         a te abrigar o coração-menino.
                         Com um sorriso a alvorecer-me a face,
                         estendo os braços e esperanças
                         como a te acolher a essência;
                         e sinto que é dela que emana
                         a centelha que me anima.

Me despertas
com tua presença calma
e uma palavra clara,
branda como o gesto da bruma
sobre a manhã recém revelada.

Então,
respiro o céu compartilhado,
toco-te em meu infinito,
beijo a paz
e amanheço.

                        Com a alma constelada.



Helena Chiarello


À tua vinda

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Cessará a noite
e o coração saberá o dia.
Acalmarão os ventos
e secarão as chuvas na memória.
Haverá a compreensão
do essencial
e toda a ternura será possível.


E nem será necessária a palavra.

                                Apenas o gesto,
                                o sorriso,
                                as mãos
                                e as bocas comovidas.


Helena Chiarello


Finalmente, amor...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Finalmente, amor, vieste...
E trouxeste, em doce encanto,
calor de sonhos nas mãos
colhidos em vento brando...
Trouxeste-me em horas calmas
o tempo, quase parando;
deste-me em verso e enredo
ternas noites de acalanto...

                   Apenas tenho um queixume
                   a suspirar-te em meu canto...
                   Por onde andaste, amor meu,
                   ocultando-te em segredo?
                   Porque não vieste mais cedo?
                   Porque demoraste tanto?...


Helena Chiarello


Um beijo (ao teu poema)...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

É no momento que se faz (o verso)
que a palavra voa de tudo o que a prende.
Solta é a emoção, que não conhece grades.

E ela vaga em amplo labirinto
guiada, muitas vezes, por afinidades,
levada, em tantas outras, pelas mãos do instinto.

                              Poesia é sonho a desvestir verdades.

É assim, o instante em que o verso nasce:
o coração é quem declama (e sem disfarce),
a intenção que o pensamento abraça.

E tudo rima em gesto, afeto, enlace
quando um poema tem o gosto e a graça
de um beijo doce, nos pousando à face...

 


Helena Chiarello


Versos de amor e nós...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Trago a nudez dos meus dedos 

a deslizar como pena
sobre a pele de um poema.

E desenho, em gesto e traço

o que a emoção traz por tema.

             Dou às palavras o espaço

             do pensamento aturdido,
             tremo e sinto, 
             em descompasso,
             o calor do teu abraço,
             nossa vontade, o gemido,
             a voz grave, o gosto, o tato,
             o arrepio do contato, 
             o ardor, o amor, o beijo
             e o desejo, incontido.

No corpo molhado e quente

do papel, marcado, escrito,
recordo um momento, em versos... 

aquele “nós dois” perfeito

em que fomos delírio e grito...


Helena Chiarello


Fuga

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

O fim de tarde me trouxe aqui,

a abrir as janelas desse sempre espanto,
a querer arredar com força
as cortinas dessa demasiada realidade,
com uma vontade absurda
de sentir o sol a arder a cara
e o vento a passar furioso
por entre as ideias e os cabelos.

É quase dor esse sentir-me assim,
com esse ímpeto de me atirar
descuidadamente na paisagem
como se a paz que vem dela
me tivesse, me absorvesse
e me desse o desvario
de andar a esmo pelos lugares
a colher esquecimentos
como quem colhe flores.

É insano alívio essa vontade de sair correndo,
de derrubar pelo caminho
os sonhos e desencantos
que me magoaram tanto os braços!
E mais correr, correr, cansar e cansar!
E depois, deitar no chão,
olhar o céu escurecendo e gargalhar
a falta de ar, de lucidez,
de pensamento e de memória.



Helena Chiarello



De(s)águas

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Percorre-me.
Cobre-me o corpo
com tua vertente e cio.

Molha-me de toques,
contorna-me de suores,
inunda-me de arrepios.


Faz-me nascente e leito
de teus desejos e calafrios.

Navega-me,
ondula-me com tua força,
seduz-me na vertigem de tuas águas,
dissolve-me a sede em rios.

Alaga-me,
invade-me,
deságua-te no que sou,
foz de ti,
destino de teus êxtases
e mar sedento de teus desvarios...


Helena Chiarello


...Palavras...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Depois,
digam que escrevi poesia.


E que minhas palavras foram muito mais do que,
se as vivesse, eu seria...
                                        (Helena Chiarello)





Poderosa

A palavra cala mágoas e chora ausências.
A palavra acalma a alma e planta esperança.
A palavra silencia desentendimentos.
A palavra sonha horizontes
e também germina pensamentos.


Poderosa palavra
dialoga com os sentimentos!

                                                     (Ellen Veloso Soares)


* * *


(Interação nascida a partir do poema "Poderosa",
de Ellen Veloso Soares, postado no Floquinhos de Algodão)

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