Além de mim

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Um pensamento,
um repente,
um instante com voragem de eternidade
deu-me a luz de compreender
essa poderosa força que me eleva,
como a arrancar-me do chão,
como a livrar-me do hábito das raízes.

E me fez sentir que sei voar
e que posso alcançar todas essas vontades
que agora eu sei,
já nasceram fecundadas de horizonte.

É nesse ímpeto que me lanço,
sabendo que posso ir mais e além,
onde pode estar o princípio de tudo.

 ...Assim, amor,
quando a brisa soprar em tua direção,
se ouvires um rumor de asas,
não te enganes...

...Será apenas minha vontade
antecedendo meu destino...



Helena Chiarello

Amanhã...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Não sei o que direi ao futuro
se chegar tão de repente
quanto vi passar o ontem,
e me surpreender a olhar,
embaçados entre as mãos,
os sonhos de amor que fiz...

Que ele não queira saber
porque deixei nus os jardins,
nem duvide das razões
dos vincos na minha face,
da sombra sobre meus olhos,
das minhas portas trancadas...


                       E se ele perguntar

                       o que foi feito do sol,
                       quem sabe eu mostre meus versos,
                       que ainda haverão de ter,
                       entre as linhas amassadas,
                       o calor do corpo que os fez...



Helena Chiarello

Isso em mim

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Ainda não tem nome esse desejo,
esse ímpeto,
essa coisa que me impulsiona,
que me põe o corpo leve,
a alma acesa,
a vontade aberta em ventos fortes
e me faz sentir o prazer do espaço
e o poder de minhas próprias asas.


(Isso que sinto é apenas o hábito

de um mundo imensamente maior,
por tanto tempo fora de mim,
que quase o havia esquecido).

                                                   Liberdade?


Liberdade é pouco.

O que eu desejo ainda não tem nome.



Helena Chiarello

(Con permiso, Clarice...)


Talvez...

Foto: Anderson Fabiano - arquivo pessoal

Talvez tudo seja nada
e as palavras sejam poucas,
minhas mãos estejam fracas
e já cansadas da pena,
do peso dessas ideias
que se agarram à emoção...
...E por achar que têm direito
bagunçam o pensamento,
se atiram de qualquer jeito
e se arrebentam na ilusão...
Talvez cansado da pedra
meu corpo já não suporte
outra certeza espantada
e reclame ter de volta
o silêncio, a paz roubada
e deseje dar as costas
a essa vontade tola
que o conduz pela mão...

(Talvez para mudar tudo
baste apenas mais um não...)


__________ E assim desistam, caladas,
__________ as palavras, afogadas,
__________ ali mesmo onde elas nascem...
__________ Naquele lugar cansado
__________ que é onde me dói o verso
__________ - e a bater, descompassado,
__________ ainda teima - o coração...


Helena Chiarello

Poemas na pele...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal


Rimas táteis inspiradas
nos sentidos despertados
ao calafrio dos teus dedos,
aos toques quentes, suaves,
que contornam de delírios
os traços de que sou feita.

                Tenho poemas na pele.
               
E deliciam-me esses versos
                
que só tuas mãos escrevem.
               
E só elas sabem ler...


Helena Chiarello


Travessia

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal


Hesito diante do que me assusta.
A obrigação de ir adiante

                                                               (o chegar é sempre longe)

O sol é alto, o dia é áspero.
O tempo arde na distância interminável.
O pensamento reverbera como a areia quente.
Olho em volta.
O que foi, magoado por ter sido.
Percurso acumulado, lapsos,
sulcos profundos, rastros em círculos.
O que vai ser, magoado antes que seja.
Travessia árida a percorrer às cegas.
O esforço de ir adiante

                                                               (o chegar é sempre lento)

Nenhum vento.
Nenhuma sombra.
Escassa a água.
O medo que se repete.
O espanto de ir adiante

                                                               (o chegar é sempre incerto)

Arrasto os passos, as solidões, as mãos desfeitas.
Cansaço e sede.
E o deserto é ainda inteiro..


                                                               (Amanhã, devagar, me diz como voltar...)


Helena Chiarello