Inquietação

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Sempre tenho sensação de perda
quando retorno de algum lugar, em viagem.
Como se não tivesse ido.
Como se voltasse de lugar nenhum.
A paisagem de volta é sempre lenta, nostálgica,
e repete-se, estranhamente triste,
ignorando a saudade de casa,
indiferente ao conforto do retorno.
A pouca luz do entardecer na estrada
comove-me e inquieta.
Uma sensação indescritível de vazio
sobrepõe-se a tudo.
Como se as sombras que caíssem lá fora
também me cobrissem.
E eu também,
como a paisagem,
lentamente anoitecesse.



Helena Chiarello




The answer is blowing the wind...

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Há uma impressão que percorre a calma
trazendo intensa sensação de espreita.
A intuição avisa, o coração pressente.
Perguntas pairam no rugir das mentes
criando sombras a espiar dos vácuos.
As respostas, incenso-as e as lanço ao vento.
Mas há que ter cuidado, a aparência é dúbia.
A imaginação é o mais imperfeito reflexo 

da emoção capciosa e inadvertida
e impõe à razão um estar de desatino.
A verdade perde-se na invídia.
Não pretendo aquietar da curiosidade o esgar.
Mas deleito-me no prazer do que digo,
não por cortesia, mas por vaidade pura:
tremo de inspiração e poiesis,
nem sempre de felicidade ou dor.
Não é ilusão o que exponho,
nem tão real a que me entorpeça os pés.
Escrevo sim a paixão e o amor

como quem desenha círculos no ar,
a espiralarem-se nas mesmas metáforas
nas quais os concretizo em lógicas absurdas.
Sigo em frente a apascentar meus sonhos
e poetizo-os para instigar incômodos.
A quem me lê, oferto a dúvida.
Que acolham em palavra e verso
as mais puras e perfeitas incertezas.
Não tenho o dom de dissipar quimeras.
Antes, alimento o mito e sustento a fé.
Cerro os punhos e adoço a voz.
Renovo o espanto, sorrio e sigo.
E aceno um gesto, em calma branca,
a cada olhar que vocifera,
a espreitar, por trás das portas...



Helena Chiarello

Pretensão

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Quero um janeiro,
um sábado,
um banco de jardim,
uma tarde com vista para o mar.
E um lugar nas tuas mãos,
para as minhas.


Helena Chiarello

De pensamento e flores

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Não há que se perder uma estação
a tentar colher perfume e cor

em pétalas de artifício.
Há primaveras impacientes
e impetuosos jardins
que anseiam por florescências.

Há esperanças a brotar
entre razões e arroubos.


No calor de uma nova estação,
há asas, aromas e sonhos

pairando entre o céu e as mãos.


Helena Chiarello

Moldura

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

O azul,
de repente,
quadrado na janela.

Céu limitado.


Helena Chiarello


(des)inspiração

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

No espaço
entre a inspiração e a folha,
o voo.

Pássaros
de asas rápidas,
as ideias fogem,
negando o espaço
que as prenda em verso.

Só as lembranças pousam.

Recito em silêncio
o momento em branco
aprisionado na memória.


Helena Chiarello




Sedução

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal


No braço
um adorno de conchas
estrelas
pingentes no peito
no corpo o sol
na pele o sal
na boca
o beijo, a maresia.


                               E a pulsar,
                               nas veias,
                               o mar...


Helena Chiarello


Sublimação

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Subtrair da memória
os imperfeitos ritos das horas.
Repousar o corpo em calma
no intervalo afável
da infinitude do tempo,
desatando da consciência
o convencimento do ontem
e a hesitação do amanhã.
Perpetuar o instante,
sublimar na plenitude do agora
a dimensão do sempre.
Tornar o sonho possível
e trazer a felicidade tão próxima
até que seja provável ouvir-lhe,
em perplexidade,
o peito arfante...



Helena Chiarello

Maresia

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Nem mesmo
o olhar
alcançou a tempo
os barcos que partiram.
Pensamentos e palavras,
                                          à deriva.
Eu,
(e apenas eu)
parei no cais.



Helena Chiarello



A ponte

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Atravesso a tarde
em passo lento
sobre os intervalos de um rio
que corre à sombra
de uma ponte coberta.

Romantismo súbito.
Emoções despertas.

Sensações brilhantes
a fluir das frestas.

Encantam o rio,
as descobertas...



Helena Chiarello



(Imagem: Helena Chiarello - Foto da Ponte Coberta em Caçador-SC, minha cidade natal)

Proximidade

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

De repente a sensação de que

tempo e distância
não são mais
do que um simples fechar dos olhos.

E no abrir dos sonhos,
estreitam-se tanto
a ponto de caberem
entre os braços...



Helena Chiarello


Absurdo

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Repetir incansavelmente
um gesto acanhado e inútil
e julgar que um dia adquira
um sentido surpreendente
e traga o convencimento
de que seja imprescindível
e capaz de sustentar a vida.



Helena Chiarello

Desistência

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Meu coração, às vezes, cansa.
E revida-me as angústias
arrancando-se de mim.
E insensível, lá de fora,
voa longe e alto e livre,
como se quisesse não bater,
enfim...

Meu coração, às vezes, cansa.
Dói-me no peito seu espaço
quando age assim.
Mas como pode censurar-me
a desistência de ser,
se foi ele quem primeiro
desistiu de mim?


Helena Chiarello

DesAcertos

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal
Quero adormecer
sem esse pensamento
pendurado na ilusão
a inventar todos os sonhos do mundo.
Não quero uma nova verdade
a me arranhar a pele,
a me ferir a pálpebra,
a me amargar a boca.
Quero cerrar a lucidez
de um passado insistente
e de um inseguro presente
a repetir num riso sarcástico
os tristes e velhos enredos
de histórias turvas e tortas.
Quero adormecer
sem os atos de contrição
rezados como redenção
aos raros acertos e infinitos erros.
Quero uma noite que se faça outra
e que o pesadelo não seja o mesmo.
Quero negar a certeza espantada
de um futuro que espreita
a ranger por entre os dentes
as mesmas frases e fases
e a impor as mesmas dores
que se infiltram por entre as frestas
de um corpo trincado
pela teimosia em acreditar
que um sonho seja possível.
Quero adormecer sem memória,
sem vontade, sem roupa, sem fé,
sem mais nada no meu corpo
que não seja a minha própria pele.
Quero adormecer
sem essa palavra
entalada na garganta
a contorcer-se na vontade
de gritar todos os bastas do mundo!



“No cabo flores abertas,
no gume, a medida exata
para atravessar-me o peito
com uma letra e uma data.
A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata...”

                      (Cecília Meireles)


Helena Chiarello

Temor

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

O instante me surpreende
no susto de um pensamento
e estremeço
a um grito de ontem
e cambaleio
num desequilíbrio de hoje
e falseio
à beira
de um amanhã que não sei...

Braços abertos de espanto
me agarro às paredes
às palavras
à esperança
de um sonho que me alcance
que me tome pelas mãos
e que me ensine a voar
e não me deixe cair...


Helena Chiarello

Opus

Foto: Helena Chiarello - arquivo pessoal

Cerram-se as cortinas.
No espaço vazio,
assombram as paredes
os ecos perdidos
de um canto solo.
Caídas as máscaras
e a fantasia.
No palco,
um drama interrompido
encerra a dança trágica
de um corpo em estado de grito.
A noite e o silêncio
protagonizam em coro
as últimas cenas da solidão.
Muda apoteose.


Helena Chiarello